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Fórum Setorial do Audiovisual Paraibano aponta precarização do cinema em edital da Funesc, que segue aberto até esta sexta (10)

 Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro/Crédito: Mano de Carvalho
   

O Fórum Setorial do Audiovisual Paraibano apresentou, na última quinta-feira (02), uma carta aberta enviada à Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc), propondo mudanças no edital n° 07/2020 (Meu Espaço – Compartilhando Cultura). O projeto da Funesc foi divulgado no dia (31) de março e oferece 105 vagas de propostas artísticas nas áreas de: contação de histórias, circo, teatro, dança, literatura, histórias em quadrinhos, música, culturas populares, artes visuais, poesia falada e cinema.

Após a fase de inscrição e seleção, o objetivo é transmitir, por meio das mídias sociais da Funesc, produtos culturais produzidos na Paraíba. Segundo a presidenta do órgão, Nézia Gomes, a fundação pretende movimentar a cena cultural e estimular o isolamento domiciliar, especificamente nesse período de pandemia causado pelo coronavírus (Covid-19). Outro objetivo é apoiar os artistas locais atingidos financeiramente pela pandemia.

Representantes do Cinema local

Assinada por mais de 40 representantes da classe, que integram o Fórum Setorial do Audiovisual Paraibano, a carta divulgada ao público foi enviada à Funesc, à presidenta da fundação, Nézia Gomes, e aos membros da Diretoria de Desenvolvimento Artístico e Cultural (DDAC).  O texto faz apontamentos e propõe adequações no edital, no que diz respeito à área de cinema.

Uma das problemáticas levantadas foi em relação à parte do edital que determinava a seleção de 10 “propostas de roteiros para produção de curtas-metragens que retratam os temas isolamento, saúde mental e resiliência nas categorias de ficção, documentário, animação ou infantil”.

Dispõe um dos trechos da carta: “Um roteiro documental, ficcional ou de animação precede a uma pesquisa anterior. Entendemos que a peça solicitada destina-se, antes de mais nada, a um serviço prestado à sociedade no campo da saúde mental e seria muito insensato da nossa parte assumir, neste momento, a autoria de uma obra que pode acionar diversos gatilhos emocionais para além de nossa responsabilidade e, quiçá, fazer o contrário: prestar um desserviço, agravando quadros de depressão, por exemplo”.

De acordo com a cineasta paraibana e integrante do Fórum, Ana Dinniz, fazer um roteiro sem pesquisa- por mais simples que ele seja, impossibilita o controle sobre como a obra pode reverberar na sociedade.

“Com a temática que é ligada à saúde mental numa fase de isolamento e de certo pânico como a gente vive hoje, fazer isso sem orientação, sem um tempo de pesquisa no campo da saúde mental, pode acionar um gatilho bem ruim em gente que já está deprimida com a situação, é um tiro que pode sair pela culatra”, alerta.

Ana Dinniz, cineasta paraibana, natural de Itaporanga, integrante do Fórum Setorial do Audiovisual Paraibano. Reprodução/Facebook

Segundo o cronograma do projeto, publicado no Diário Oficial do Estado da Paraíba (DOE-PB), as inscrições seguem abertas até esta sexta-feira (10). A análise das propostas inscritas acontece entre os dias 11 e 13. O resultado será divulgado no dia 14 e o limite para envio dos vídeos é dia 24. Após análise do material, a transmissão será feita a partir de 28 de abril.

Errata da Funesc

Na sexta-feira (03), a Funesc apresentou uma errata do edital com alterações. O trecho que delimitava a temática de saúde mental e isolamento para os profissionais de cinema, saiu. A descrição atual detalha 10 “propostas para a produção e entrega de um curta-metragem inédito com duração de no mínimo 3 minutos e máximo de 10 minutos, nas categorias de ficção, documentário ou infantil ou propostas de formação básica na área audiovisual gravadas em formato de vídeo, com duração de mínimo 30 minutos e máximo de 1h”.

Para Ana Dinniz, a opção de realização de formação básica/oficinas é positiva e foi uma solicitação da classe, mas a proposta para os profissionais de cinema ainda apresenta vulnerabilidades, entre elas, a determinação das bolsas individuais para a produção de curtas-metragens, que não leva em consideração o cinema como um fazer coletivo, além de precarizar o trabalho do setor.

“Qualquer vídeo pode ser feito só com celular e um aplicativo de edição, mas o que está sendo pedido é um curta-metragem, com narrativa roteirizada, dirigido, ambientado, iluminado, gravado, sonorizado, editado, finalizado minimamente. Veja o tanto de gente que não foi levada em conta no processo, o nome disso é precarização. O edital solicita que profissionais de carreira, momentaneamente sem trabalho, façam isso e sem garantia válida de autoria do projeto. Isso é enfraquecimento e ainda causa disputa”, destaca.

Frame do curta-metragem 'Fim' (2019), de Ana Dinniz, premiado como melhor roteiro na Mostra Sob o Céu Nordestino, da 14ª edição do Fest Aruanda/Arquivo Pessoal


Garantia de autoria dos trabalhos

A autoria dos roteiros é outro ponto da discussão, já que, de acordo com o Fórum Setorial do Audiovisual Paraibano, diferente de peças publicitárias, todo roteiro audiovisual, por mecanismo jurídico que assegura ao roteirista o direito autoral da obra, precede registro na Biblioteca Nacional para ser validado.

O registro é feito pessoalmente em um escritório da cidade de Recife (PE), onde é expedido um número provisório e, no prazo de 180 dias, o número definitivo. “É uma burocracia que a gente não tá podendo fazer agora. Se você não tem um registro oficial de que aquela obra é sua, qualquer um a qualquer tempo pode questionar isso”, pontua Dinniz.

Em relação à alteração que a Funesc realizou no edital após o envio da carta pelo Fórum, Ana Dinniz compreende a atitude como “importante, por termos visto uma abertura para o diálogo, mas eles continuam insistindo numa produção de algo que é ainda mais complexo que só um roteiro, e precarizando totalmente o trabalho porque se você não paga um roteirista com aquele cachê, e não paga, e a gente entende também que aquele cachê não cumpre essa missão, é uma ajuda emergencial, muito menos um curta-metragem se paga”, analisa a cineasta.

'Somos um estado rico culturalmente, mas que sofre com a precarização do trabalho'


Diego Lima, diretor e roteirista paraibano, no set do curta-metragem 'Crua' (2019), junto do elenco. Fotografia: Milena Medeiros


Diego Lima, diretor e roteirista, afirma que há anos o movimento audiovisual da Paraíba enfrenta obstáculos para manter um diálogo horizontal com o Governo do Estado e a Secretaria de Estado da Cultura (Secult), “que nunca fizeram questão de propiciar encaminhamentos com relação às demandas da classe”, diz.

“Existe uma dificuldade da gestão em conseguir recursos para além dos recursos que são destinados para a LOA. E existe uma gama de oportunidades e parcerias que poderiam ser firmadas para ampliar esses recursos. Somos um estado rico culturalmente, mas que sofre muito com a precarização do trabalho. Essas chamadas emergenciais que foram feitas agora e as anteriores sempre contemplaram valores que não condizem com a realidade da vida de quem trabalha com audiovisual”, explica.

'Atrito' (2017), escrito e dirigido por Diego Lima. O curta também conta com a direção de arte de Ana Dinniz.


Diego é natural de João Pessoa e trabalha com cinema há 8 anos. Escreveu e dirigiu dois curtas-metragens: “Atrito”, 2017, ganhador do prêmio de melhor curta no 19º Festival do Rio, e “Crua”, 2019, selecionado para o 48º International Film Festival of Rotterdam.

O realizador audiovisual destaca a variedade de profissionais envolvidos no cinema, um dos setores que mais gera emprego no país e, mesmo assim, segue sendo negligenciado:

“Trabalhamos com produtoras, técnicos, eletricistas, maquinistas, diretores de arte, roteiristas, diretores, assistentes de câmera, contadores, advogados. É um setor com uma cadeia produtiva ampla que sempre esteve precarizada em relação às políticas culturais do estado, e isso é uma questão que já vem há dez anos”.

Set de gravação do curta-metragem paraibano 'Crua' (2019), selecionado para o 48º International Film Festival of Rotterdam. Foto: Milena Medeiros

Diego explica que o edital publicado pela Funesc surgiu através de um documento de articulação do Fórum dos Fóruns de Cultura da Paraíba com a Comissão de Educação, Cultura e Desporto da Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB), na busca de medidas de curto, médio e longo prazo, no que tange à pandemia de Covid-19.

Para o diretor, que também integra o Fórum Setorial do Audiovisual Paraibano, a precarização do trabalho e a verticalização da comunicação são dois gargalos que impedem o fortalecimento da cena local. Segundo ele, não há um gerente na linguagem audiovisual dentro da Secult, o que dificulta o estabelecimento de políticas audiovisuais substanciais e o próprio entendimento das demandas e questões da classe. O realizador cultural acredita que a participação da sociedade e dos profissionais do cinema é fundamental no processo de tomada de decisões públicas ligadas à área.

“Nós temos propostas, o que tá faltando é sentar com o governador e a gente chegar num caminho em consenso pra resolver essa situação, porque não dá mais pra ficar nessa, já estamos assim há dez anos”, enfatiza.


Confira a íntegra da carta assinada pelo Fórum Setorial do Audiovisual Paraibano e enviada à Funesc:






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